10 anos até ao PBP: uma história de persistência
Randonneurs Portugal Nº 20120056
Paris Brest Paris 2023

Uma preparação que começou sem eu saber
A preparação, sem eu saber, para o Paris Brest Paris começou em 2012, quando um amigo meu cujo primeiro nome tem um I com acento agudo e o seu apelido tem um O com acento agudo, me disse “Olha, há uma cena de desafios de longa distância que deves gostar de fazer”. O primeiro que fiz foi a 13 de Outubro de 2012, o Pavia, 200 km sempre à noite, logo para começar. Correu bem e a partir daí foi a vencer as barreiras dos 300 km, 400 km e finalmente, e só passado 6 anos terminei, o meu Portugal na Vertical de 600 km (a primeira tentativa ia correndo mal, não cheguei a Odeceixe por minha decisão. Passado um dia estava arrependido de ter desistido).
2018: quando percebi que ainda não estava preparado
Em 2018 não estava minimamente preparado para o PBP, sei eu agora. O conhecimento que eu tenho do meu corpo aumentou de 2012 para cá, de tal forma que nunca pensei que ele aguentasse tanto esforço, mas se os outros conseguem… Não é bem o corpo, é mais a mente.
Em 2018 comecei a preparar-me para em 2019 ir ao PBP. Só nesse ano fiz 10 brevets, todos em Portugal, num total de 3000 km só em brevets e fiz um dos brevets mais bonitos de sempre, o 200 do Douro. Estava já mais que mentalizado para ir a Paris. Fiz o clássico L’Antique e semanas depois fui dar uma volta ao Guincho (no dia em que o Benfica ganhou o Nacional em casa 10-0. Estive no estádio). Tive uma dor aguda no joelho direito. Ainda fiz o Lost, mas chegando a Estremoz a dor reapareceu e desisti em Montemor-o-Novo (sim, fui com dores horríveis até lá). Tinha percebido que tinha terminado a ida ao PBP esse ano. Estava mesmo em baixo por ter ido tudo pelo cano abaixo, ou não. Basicamente era o problema no joelho e do selim, estreito demais para a minha bacia. Dei por isso depois de um bike fit.
O regresso ao objetivo
No início de 2022 comecei, mentalmente, a preparar-me para chegar a Rambouillet.
Em 2023 fiz, com gosto, todos os brevets para me poder qualificar e inscrever-me para o PBP. No início do ano tive algumas insónias a pensar nos 1200km, até que houve uma call com alguns randonneurs que me acalmou e consegui dormir melhor.
Por conta própria
Percebi que dava para fazer o PBP com carro de apoio e ainda tive na cabeça que queria que a Inês fosse a motorista desse carro. Mas duas razões porque não quis: primeiro queria estar por minha conta e risco, em modo de auto-suficiente e depois vim a descobrir que para quem vai no carro de apoio é um stress assim como quem pedala. Não queria nada disso no meu PBP. Levei roupa para chuva (que não foi necessária), barras de cereais (para ir comendo), um saco-cama (que nunca abri, mas serviu-me duas vezes de almofada), uma muda de roupa (estava a contar lavar quando tomasse banho e depois secava em cima da mochida do selim), 3 câmaras de ar, um pneu (que foi utilizado), ferramentas e muito importante protector solar. A bicicleta já devia ir nos 15 kg, mas ia com tudo o que eu achava que podia necessitar e me fazia sentir à vontade para os quilómetros que tinha pela frente.
Rambouillet e a véspera da saída
Aluguei um carro, para poder dormir e deixar alguns pertences e dormir com algum “conforto”. Pouco dormi, porque só queria arrancar e eu só começa dia 21, às 5 da manhã. Dia 20 de Agosto, às 11, fiz o check in em Rambouillet. Nunca tinha visto tanta bicicleta, pelo menos 6850 passaram pela partida. Desde as mais vulgares até às mais estranhas. Incrível, parecia um Tróia Sagres em esteróides. Ainda tive nesse dia a companhia da Inês e da Beatriz, que foi um bom apoio moral, gostava mesmo era que tivessem na chegada, mas às horas que cheguei era impossível.
As primeiras pedaladas
Dia 21, o despertador tocou às 4 da manhã e tinha poucas horas de sono. Montar a bicicleta e tomar um pequeno-almoço. Siga para o check das luzes e colete reflector.
Ainda fui a tempo de dizer um olá ao Pedro Alves que ia partir 15 minutos, primeiro que eu.
Zero ansiedade e às 5 da manhã chegam e as primeiras pedaladas são dadas e vem uma sensação de alívio por estar a participar em algo que há muito queria.
Os primeiros 30 quilómetros foram feitos em pelotão, a grande velocidade (acima dos 30km/h) e à frente com o carro batedor. Após uns 40 km veio o desmembramento do mesmo. Por um lado ainda bem, porque aquilo era muita testosterona a querer chegar a Brest em menos de nada. E com isso veio o primeiro de 3 nasceres do sol.
Mortagne-au-Perche, 119 km feitos e recebe-se o primeiro banho de gente a puxar por todo o pessoal. À saída uma descida grande e pensei que isto à volta ia doer e doeu.
Quase todo o percurso era paisagem agrícola, um sobe e desce calmo, menos a chegar a Brest e a sair.
A chegada a Fougères, isto com 300 km percorridos, comecei a aperceber-me que havia participantes quase mortos. Muitos que tinham partido no dia anterior.
“Mas esta gente vai conseguir terminar?”
“Como é que esta gente já está neste estado só com 1/4 do PBP feito?”
Basicamente eram duas perguntas que me vinham à cabeça.
O ambiente PBP
Durante o PBP vi muita gente a apoiar, muitos “Allez, allez”. Lembro-me de duas personagens, ambas no regresso. Uma era uma rapariga, numa aldeia, sozinha numa cadeira de rodas e um tipo, no meio do nada, durante a noite, estava sentado numa cadeira de plástico de uma camisola de alsas. E à noite faz bastante frio.
Viam-se muitas autocaravanas, bancadas improvisadas à beira da estrada, ou em propriedade privada com batata frita, água, coca cola, frutos secos (foi a primeira vez que comi pêssego seco e gostei, mas quando se anda de bicicleta toda a comida é boa) e as maldita baguetes. Na maior parte dos sítios não te pedem nada, em alguns havia uma garrafa de plástico para donativos (dei sempre qualquer coisa) e muito raramente havia uns que era só mesmo para comprar.
Apetecia-me parar em todos.
Eu decidi pelo caminho que iria dormir só duas horas. Eu também não gosto de dormir muito, e resolvi fazer esta primeira noite como teste.
A primeira noite em Loudéac
A minha primeira noite foi em Loudéac, às 22:49, e já vinha bastante cansado e com grande vontade de dormir. Não tive uma boa experiência, a casa de banho tinha pouca luz, por um lado ainda bem, mas o que eu conseguia ver era meio nojento, fez-me lembrar uma câmara de gás, mas com bom aspecto. Mas queria mesmo tomar banho antes de me deitar por um pouco. Um dos voluntários indicou-me a cama.
Aquilo era um polidesportivo, só se via alguma coisa porque havia umas luzes fraquinhas, porque estavam muitas pessoas a dormir e a ressonar. muitas camas de campanha, verde acho eu. O saco-cama serviu de almofada, porque havia um cobertor. Passado algum tempo entra um grupo, calculo que eram 3/4. Falavam como se fosse meio dia, só se ouviam sacos de plástico a abrir e a fechar. Não se fez muito por esperar uns “chius”, mas os barulhos simplesmente baixaram, mas não acabaram. Um deles veio ter comigo e disse num inglês do Algarve, que eu estava na cama dele. Passei-me e descarreguei o facto de eles não pararem de fazer barulho e eu ter a certeza que estava na cama certa. E reclamei em português, não me voltou a chatear e o barulho cessou. Virei-me para um lado e fiz conchinha com o meu capacete, sapatos e mochila.
O despertador acordou-me, o ar frio da noite serviu-me de café.
Chegar a Brest
Só queria ver o quase extremo oeste de França, Brest, mas antes ainda tinha uma grande subida, quase 20 km, mas fácil de se fazer a ritmo. E logo a seguir, uma rotunda e um ciclista participante no chão, calculo tratar-se de um acidente, mesmo no início da descida até Brest. Já lá estavam outras pessoas e uma ambulância.
A chegada a Brest deu-me outro ânimo, disse para mim mesmo “Agora só tenho que terminar.” SÓ!
Depois de ter carimbado pela 9.ª vez parei numa pastelaria, com uma fila gigante, mas claro que desisti e arranquei até à próxima pastelaria sem tanta gente.
Depois de passar a ponte de Brest apanhei um senhor que estava a dar morangos, aceitei e passado uns 50 metros estava outro a dar também morangos. Eu “provei” dos dois e ouvi a reclamação do segundo que “isto é só para quem não tenha conseguido comer no primeiro posto”. Eu sem parar agradeci, disse que era português e segui a rir.
O regresso e a avaria
Mas o sorriso saiu-me rapidamente porque durante alguns quilómetros apareceu um sobe e desce que me chateou particularmente.
A noite aproximava-se outra vez e Loudéac (eram 21h25 quando cheguei) aproximava-se outra vez. Mas prometi a mim mesmo que não iria dormir outra vez naquele posto de controlo. Iria fazer um esforço para ir até Tinténiac, entre eles era 90 km de distância.
Mas tive que parar porque: primeiro era um posto de controle e porque na última pedalada, mesmo antes de colocar a bicicleta no parque, o carreto ficou livre para a frente. Ia-me partindo todo. Percebi que as palhetas do carreto, que fazem com que a cada pedalada a bicicleta andasse, deixou de existir.
E agora como explicar isto a alguém que só fala francês? Gestualmente, claro! O mecânico disse para ir carimbar o brevet e ir comer porque o arranjo era rápido.
Assim fiz. No refeitório ainda estive a falar com um neerlandês e um inglês.
Fui buscar a bicicleta e foram €13 de arranjo. Tive uma sorte daquelas, porque se isto tivesse acontecido fora de um posto de controlo, como vi um outro ciclista a quem um pneu tinha rebentado a 10km do posto de controlo, ele não tinha um extra e eu já tinha utilizado o que eu tinha trazido, tinha que ir a pé para ter ajuda.
Sono, frio e uma paragem no meio do nada
O sono estava a dar cabo de mim, estava a tentar combatê-lo mas lembrei-me do meu primeiro Portugal na Vertical e para que não me acontecesse o que aconteceu. No meio do nada deitei-me com o saco-cama a servir de almofada, mas tive pouco tempo porque aí o vento vinha de todo o lado. Estava cheio de frio e tremia por todos os lados, só tinha uma solução, pedalar como se 3 cães viessem atrás de mim e lá aqueci.
Uma noite improvável em Illifaut
Estava a chegar a uma aldeia, como uma outra qualquer, eram mais ou menos 2 da manhã. Aqui tive uma experiência que se viesse com carro não passava por ela.
No meio da rotunda dois rapazes, meio inglês meio francês perguntaram se eu queria dormir.
– Como assim? Sem pagar nada? – disse eu enquanto travava.
– “Rien!” – disseram-me os dois em coro.
Havia uma festa, com música baixa e uma barraca de comes e bebes, eu nessa altura queria primeiro dormir, depois o resto.
Era a casa do tio deles. O senhor cedeu uma divisão num rés do chão para albergar quem quisesse dormir. Eu quando cheguei já lá estavam outros cinco, deitados em colchões, mais as suas bicicletas e eu deitei-me no que sobrava.
Esta noite foi mais tranquila, nem ouvi roncos, nem sacos de plásticos, nem conversas.
Quando acordei já estavam outros cinco, acho eu, a dormir. Fui à barraca de comes e bebes.
– Uma sopa, um panique de chocolate e uma maldita de baguete mista s’il te plaît
A sopa era cinzenta, talvez por causa das luzes da festa, mas soube-me pela vida comer algo quente às 4 da manhã em Illifaut, eu fiz uma tradução em cima do selim “eles são malucos.”
Lembro que nos quilómetros seguintes eu ia meio “bêbado” talvez porque, em 45 horas e 850 km, ter dormido somente 4 horas. Mas o vento fresco nesta zona de França deu para despertar. Mas aquela sopa soube-me pela vida.
Tinténiac, Fougères e Villaines-la-Juhel
A chegada a Tinténiac foi feita debaixo de um nevoeiro e um grande vontade de ir à casa de banho e nem sabia que tinha uma fila grande para a mesma.
Em Fougères já estava a sair e encontro o Pedro Alves. Estava com um problema na sua bicicleta. Perguntei se ele precisava de algo, mas disse-me que já se tinha safado. Desejei-lhe, passado dois dias, outra vez boa prova e segui para Villaines-la-Juhel.
Em Villaines-la-Juhel já eram 2 da tarde e um calor desgraçado. A rua estava fechada e havia gente por todo o lado, atrás de grades. Como ontem à noite não tomei banho, resolvi perder aqui um tempo para tomar uma banhoca e trocar de roupa. Mas antes claro, carimbar o Brevet (esta é uma dica muito importante). Aqui a casa de banho era impecável e até sabonete me deram. Foi um bálsamo para continuar e ganhar ânimo para a chegada a Rambouillet que estava a 12 horas de viagem.
Os últimos controlos
Até Mortagne-au-Perche foi tranquilo, ainda fiz alguns quilómetros com um francês e íamos a rodar à vez na frente sem precisar de dizer o que quer que seja, até que chegou um outro ciclista e perguntou se podia andar connosco (pergunta desnecessária, mas simpática). Desde que ele entrou o ritmo aumentou e muito, eu rodei duas vezes na frente e disse para seguirem sem mim. Eles disseram que levantavam o pé e o terceiro ciclista “desapareceu”. Entretanto fomos os dois a pedalar lado a lado e lembro de estarmos a subir uma estrada com curva contra curva e atrás de nós vinham 4 carros, com calma.
“Estes” em Portugal já tinham ultrapassado e talvez apitado.” disse-lhe.
“Aqui é calmo, as pessoas esperam.”
Parámos à porta de um senhor que tinha muita comida e foi aqui que comi pela primeira vez pêssego seco, que nunca tinha experimentado como já tinha dito atrás.
Arrancámos e passado uns quilómetros ele foi à vida dele e eu mantive-me no meu ritmo.
Em Dreux era o último posto de controlo e era de noite, 11 da noite. Reparei que o meu power bank estava nas últimas, assim como a bateria da luz e ia precisar dela para o resto da prova. Deixei os dois a carregar numa rara tomada disponível, enquanto fui comer. Aqui comi o meu primeiro Paris Brest e em situações normais nunca comeria este tipo de pastelaria com tanto creme. Já com a barriga confortada e a bateria um pouco mais carregada, mas não estava muito confiante que isto fosse durar até Rambouillet.
A última noite
Estava cá fora a preparar-me para arrancar e vejo um casal norte americano, numa bicicleta, com uma discussão passivo-agressiva. Pensei “que agradável vai ser para este casal as últimas 3 horas”. Eu segui a minha viagem pela última noite. Lembro-me de uma subida grandita, tenho a noção que estou num planalto e a luz ainda dura.
Até que, claro, entro em Le Mesnil Condit, faço uma rotunda e no meio do da mesma fiquei sem luz. A 20 quilómetros parei numa paragem de autocarro à saída da rotunda e vila a pensar na minha vida e no que havia de fazer.
Primeiro utilizar o power bank da Inês para carregar a luz, mas enquanto carregava não ligava. Ainda pensei ir a pé (ideia parva). E finalmente lembrei-me de atirar ao ar e pedir uma luz a alguém que passasse. Nem um minuto depois passa um pelotão e grito “SPARE LIGHT”. Alguém pára e quem era? O casal que estava em Dreux numa bicicleta tandem numa discussão passivo-agressiva.
Que sorte e azar meu. Eles emprestaram-me uma luz, que não dava para o guiador e só dava a forqueta e iluminava o céu. Fui com eles porque no final teria que lhe devolver a luz. Ela disse que tinha de fazer xixi, ele disse para ela levar luz, ela disse que tinha luz, mas essa luz que ela achava que tinha estava na minha bicicleta. Não me envolvi nesta discussão.
Os últimos quilómetros
Lá arrancamos depois de 5 minutos porque ela tinha de descansar. Disse que estava com muito sono. Calculei que ia ser uma companhia horrível nos 20 quilómetros restantes.
Mas não, vim a falar com ela, descobri que eram de Pensilvânia, que era a 4 vez que participavam no PBP, nem sempre juntos. Eu disse-lhes que era de Lisboa.
“Adorávamos ir a Lisboa.”
“Não vão, há muitos turistas. Eu gosto muito da minha cidade, mas é horrível com a quantidade de turista que existe.”
Mas não queria deixá-los na mão.
“Se quiserem ir a Lisboa estejam lá na noite de 12 para 13 de Junho.” Expliquei-lhes o que eram os santos e eles adoraram a ideia.
Com a conversa quase não me apercebi que tínhamos cortado a meta.
A chegada
A organização ofereceu a todos um belo de um repasto. E jantei com eles e um casal amigo deles. Levei dois tabuleiros: sopa, uma entrada, dois pratos e duas sobremesas.
Quando regressei à minha bicicleta tinham-me roubado o meu gps. O meu gps era da Garmin, custou-me €80, era de tão baixa gama que já foi descontinuado. Fiquei chateado, não por me terem roubado o Garmin, mas porque lá dentro estava o registo do PBP.
Fui para o carro descansar. Na manhã seguinte fui à cantina perguntar pelo dito, aos perdidos e achados e ao carro e em todos os bolsos e malas e nada.
Mas pronto, arranquei para Paris para ir ter com as minhas meninas, para contar a minha aventura e a pensar quem teria roubado um gps tão fraco quando as duas bicicletas que estavam encostadas ao lado da minha tinham gps muito mais modernos.
Enfim… foi uma prova incrível e mais incrível é quanto um corpo aguenta assim uma pessoa se mentalize para o fazer.